Como criar lembretes positivos para cuidar de si
Durante anos, os meus lembretes foram avisos de tarefas atrasadas. Hoje, alguns deles são pequenos gestos de carinho comigo própria. A diferença não está na tecnologia, está no tom. E na intenção com que os deixamos pelo caminho.
Comecei a experimentar lembretes positivos quase por acaso. Estava a sair de casa com pressa, e à porta do frigorífico colei um pequeno papel que dizia: “respira antes de abrir o portátil”. Não era uma frase profunda. Não era uma citação famosa. Era apenas a tradução de uma intenção. E funcionou — não porque a frase me convencesse, mas porque me lembrava de algo que eu já queria fazer.
É essa, para mim, a diferença entre um lembrete positivo e uma “to-do”: o lembrete positivo apoia uma intenção já existente. Não vem de fora a impor. Vem de dentro a sussurrar.
Tenho três lugares preferidos para os meus lembretes. Cada um tem uma função diferente, e nunca os misturo. Confundir lugares é o caminho mais rápido para deixar de os ver.
- O espelho da entrada: uma frase curta sobre como quero entrar no dia.
- O frigorífico: um gesto físico — bebe água, respira, abre a janela.
- A mesa de cabeceira: uma palavra para fechar o dia em paz.
Não uso aplicações para isto. Já tentei. Os pings rapidamente se misturam com tudo o resto. Os papéis físicos têm uma qualidade que o ecrã não tem: estão sempre no mesmo sítio, sempre à mesma altura dos olhos, e mudam de cor com o tempo.
“Um lembrete bem colocado é meio caminho andado. Não é a frase que muda — é o lugar.” — Mariana Soares
As primeiras frases que escrevi eram demasiado vagas. “Sê feliz”, “tudo bem”, “calma”. Funcionavam mal. Hoje sei que o lembrete mais eficaz é o que indica um gesto, não um estado. “Respira três vezes antes de abrir o email” funciona melhor do que “fica calmo”. O verbo é importante. Indica o caminho.
Reescreva os seus lembretes de modo a começarem por um verbo concreto: respira, bebe, olha, espera, escreve. Verá a diferença ao fim de uma semana.
Outra aprendizagem foi a frequência. Quando os lembretes são muitos, perdem força. Quando são poucos, ganham peso. Hoje tenho, no total, cinco lembretes físicos espalhados pela casa. Quase nunca mudo todos ao mesmo tempo — vou trocando um por mês. Esta rotação ajuda-me a manter a frescura, sem ter de pensar demasiado.
Conforme notam especialistas em estilos de vida ativos, segundo informações da OMS sobre comportamentos sustentáveis, a manutenção de pequenos rituais costuma contribuir para o bem-estar geral. Não é a quantidade de rituais que importa — é a forma como se encaixam na vida.
Tiago Almeida
Os lembretes positivos têm um efeito curioso: começam por mudar o ambiente, e depois mudam o pensamento. Quando passo por um cartão que escrevi, mesmo sem o ler conscientemente, há uma parte de mim que se ajusta. É como se a casa começasse, ao fim de algum tempo, a pensar comigo. Isso vale mais do que qualquer aplicação que conheço.
Acontece com frequência: um lembrete que funcionou maravilhosamente durante semanas começa a ser ignorado. É um sinal positivo, não negativo. Significa que o gesto se integrou — já não precisamos de o ler para o fazer. Quando isso acontece comigo, costumo trocar a frase. Não para a mesma ideia com outras palavras, mas para uma intenção diferente. Os lembretes são vivos. Devem mover-se connosco.
Em última análise, criar lembretes positivos é um exercício pequeno de hospitalidade interior. Estamos a cuidar de nós como cuidaríamos de um convidado importante: deixando bilhetes simpáticos pela casa. A diferença é que, neste caso, o convidado somos nós.
Recentemente, comecei a partilhar esta prática com colegas próximos no escritório. Nada estruturado — apenas perguntar, ao café, “que lembrete deixaste para ti esta semana?”. As respostas são sempre interessantes. Uma colega tem na secretária um cartão a dizer “fala mais devagar nas reuniões”. Outro colega cola pequenos pontos verdes no portátil para se lembrar de levantar os olhos do ecrã. Esta troca pequena tornou-se uma forma de cuidar coletivo.
O que aprendi com isto é que os lembretes positivos não são apenas íntimos. Podem ser partilhados, comentados, melhorados em conjunto. Como notam especialistas em comportamentos quotidianos da OMS, o contexto social influencia muito a manutenção de hábitos. Uma frase que combinamos com outra pessoa tende a manter-se viva mais tempo.
Se nunca tentou esta prática, o meu único conselho é começar pelo mais pequeno possível. Um cartão. Uma frase. Um lugar. Não compre cadernos novos, não desenhe sistemas, não envolva aplicações. Pegue num papel qualquer, escreva uma intenção que já carrega dentro de si, e cole-o numa porta. Depois espere uma semana. Verá o efeito por si próprio.
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Água, pausas e movimento: três pilares simples do dia
Há anos que descobri uma coisa muito banal: quase tudo o que melhora o meu dia cabe em três palavras. Água. Pausas. Movimento. Não é uma fórmula, é mais um eixo. E é a esse eixo que regresso sempre que me sinto disperso.

Costumo dizer, em conversa, que a água é o hábito mais barato e mais subestimado do planeta. Quase toda a gente sabe que devia beber mais. Quase ninguém o faz. Eu próprio passei anos a ignorar este sinal — bebia café, chás, sumos, mas só me lembrava da água quando tinha sede a sério, o que já é um sinal tardio.
O que mudou para mim foi pôr o copo à vista. Literalmente. Tenho um copo de vidro na bancada da cozinha desde a manhã, ao lado da máquina de café. Antes de premir o botão do espresso, encho-o de água, bebo metade, e só depois faço o café. Esta pequena coreografia transformou-se num ritual. Funciona porque não pede esforço — só uma posição de objetos.
Não conte copos. Não meça mililitros. Apenas coloque o copo à vista, junto a algo que já faz todos os dias. A repetição cuida do resto.
Se a água é a base, as pausas são a pontuação. Sem elas, os dias correm sem vírgulas, e ao fim da tarde a cabeça fica cheia de tudo e de nada ao mesmo tempo. Aprendi com o tempo que as pausas curtas e regulares são mais valiosas do que uma grande pausa esticada.
- Pausa de 60 segundos: levantar, esticar os braços, olhar pela janela.
- Pausa de 5 minutos: sair da secretária, beber água, mexer os ombros.
- Pausa de 20 minutos: caminhar, almoçar com calma, sair à rua.
Não é preciso uma aplicação. Eu uso um pequeno temporizador analógico — gira-se e marca 25 minutos. Quando toca, paro. Não precisa de bateria, não precisa de pings. É um som suave, e basta-me. O ato de tocar no objeto físico ajuda-me a separar momentos.
“Como notam especialistas em estilos de vida ativos, alternar entre concentração e pausas curtas pode contribuir para a sensação de clareza ao longo do dia.” — Inspirado em recomendações da OMS
Durante anos, achei que “movimento” era sinónimo de ginásio. Por isso, raramente o fazia. Tinha sempre uma desculpa boa: pouco tempo, pouca disposição, demasiado calor, demasiado frio. Hoje sei que o movimento que conta na vida diária não é o que aparece nas redes sociais — é o que se acumula sem dar por isso.
Como referem investigadores da Universidade de Harvard em textos sobre estilos de vida saudáveis, movimento regular e leve costuma contribuir mais para o bem-estar geral do que sessões intensas e ocasionais. Para mim, o melhor exercício é aquele que não preciso de planear — basta acontecer.
Mariana Soares
O que mais gosto na ideia destes três pilares é que eles não competem entre si. A água apoia as pausas. As pausas convidam o movimento. O movimento faz-nos lembrar de beber água. É um ciclo gentil. Quando um dos três cai, costuma haver uma forma simples de o trazer de volta — basta começar por outro.
De manhã, antes de ler qualquer email, faço três coisas, sempre na mesma ordem. Bebo um copo de água. Faço dez alongamentos lentos. Olho pela janela durante um minuto. Não falo de quantidades. Não falo de séries. Não há cronómetro. É uma sequência de gestos pequenos, encadeados, que demora menos de cinco minutos. E mudou a forma como entro no dia.
Há semanas em que tudo isto desaparece. Viagens, trabalho intenso, vida real. Antes, isso fazia-me sentir derrotado. Hoje sei que estes três pilares são como um eixo a que se regressa, não uma régua que avalia o dia. Quando a vida me afasta deles, regresso na primeira oportunidade — sem cobrar nada a mim mesmo. Esta é, talvez, a parte mais importante: o regresso é fácil porque o gesto é fácil.
Depois de manter este eixo de forma irregular durante quase um ano, há mudanças que noto. A primeira é uma constância de energia mais agradável: deixei de ter aquelas quedas pesadas a meio da tarde, quando tinha de me esforçar para retomar a concentração. A segunda é uma melhor relação com a sede — agora reconheço-a antes de se transformar em irritabilidade. A terceira é simplesmente uma sensação de estar mais presente em cada bloco do dia.
Não considero nada disto resultado de disciplina. Considero-o resultado da repetição relaxada. Como referem investigadores em estudos abertos da Universidade de Harvard sobre estilos de vida, escolhas pequenas e consistentes costumam contribuir mais para o bem-estar geral do que tentativas pontuais de transformação radical. Para mim, faz todo o sentido: a vida real cabe melhor em gestos pequenos.
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Como observar a rotina sem complicar
A maioria dos planos de bem-estar começa pedindo uma reorganização total da vida. Este não. Aqui parte-se do que já existe, e tenta-se ver com outros olhos. Observar é mais simples do que arrumar — e, em muitos casos, é o passo que falta.
Quando comecei a interessar-me por hábitos, a primeira tentação foi a habitual: comprar um caderno bonito, fazer listas, definir metas. Durou pouco. Ao fim de duas semanas, o caderno estava na gaveta, e eu sentia que tinha falhado. Foi então que ouvi alguém dizer uma frase simples: “observa primeiro, decide depois”. A ideia ficou comigo.
Observar a rotina é, antes de tudo, ouvir o que ela já tem para nos dizer. Sem mudar nada. Sem julgar. Apenas reparar. A que horas costumo levantar-me? Quando como? Onde sinto cansaço? Que momentos do dia são leves e quais pesam? Estas perguntas, feitas com curiosidade, costumam revelar mais do que qualquer aplicação.
“Antes de mudar a rotina, vale a pena conhecê-la. A informação que recolhemos sem pressa costuma ser mais útil do que qualquer plano feito à pressa.” — Mariana Soares
Para mim, o dia tem três tempos principais. A primeira hora, o meio da tarde e o fim do dia. Em cada um, costumo perguntar-me três coisas: como está o meu corpo, como está a minha cabeça, e o que quero do próximo bloco. Não preciso de escrever nada — basta uma pausa.
- Manhã: tenho energia ou ainda estou a acordar? Estou ansiosa por algo concreto?
- Tarde: sinto fome ou apenas sede? Há tensão nos ombros, nos olhos, no queixo?
- Noite: que ideia ficou comigo do dia? Há algo que ainda me ocupa a cabeça?
Estas perguntas não exigem grande tempo. Demoram trinta segundos. Mas mudaram a forma como olho para a rotina. Antes, atravessava o dia como quem passa numa autoestrada — sem ver as paisagens. Agora consigo identificar quando preciso de uma pausa, antes que ela se transforme em irritação.
Comece por escolher um momento do dia. Pode ser apenas a manhã. Durante uma semana, dedique 30 segundos a notar como se sente. Sem mudar nada. Apenas observar.
A primeira vez que tentei observar a rotina, transformei o gesto numa lista exaustiva. Tinha 14 perguntas, três caixas para preencher e um plano de “métricas semanais”. Resultado: durou três dias. Hoje sei que o segredo é o oposto — quanto mais leve a observação, mais fácil é repeti-la.
Como referem especialistas em estilos de vida saudáveis, segundo investigações da Universidade de Harvard sobre comportamentos sustentáveis, hábitos pequenos tendem a manter-se mais do que sistemas complexos. Não porque sejam mais eficazes em teoria, mas porque cabem no mundo real.
Tiago Almeida
Acho que observar é a forma mais subestimada de cuidar de si. Quando começamos a notar a rotina, descobrimos que muito do que queremos mudar já está, em parte, presente — só não estávamos a vê-lo. Costumo dizer que a primeira semana de qualquer mudança devia ser apenas para olhar. Sem nada para corrigir. É espantoso o que se aprende.
Se sentir que escrever uma palavra ou duas o ajuda, faça-o. Mas evite transformar isso num diário extenso. Eu uso um pequeno cartão na carteira, com três espaços: “manhã”, “tarde”, “noite”. No fim do dia, anoto uma palavra para cada — calma, agitada, espessa, leve, atenta. Ao fim de uma semana, vejo padrões que de outra forma escapariam.
Este pequeno ritual semanal ajuda-me a perceber quais foram as tardes mais pesadas e a aproximar-me da pergunta seguinte: o que pode estar a contribuir? Quase sempre a resposta é simples — pouco sono na véspera, demasiadas reuniões seguidas, refeições à pressa.
Há uma diferença importante entre observar e controlar. Observar é abrir os olhos. Controlar é fechar a mão. O risco de muitos sistemas de produtividade é confundir os dois. Acabamos a tentar otimizar cada minuto, em vez de simplesmente notar como ele se passa.
Para mim, a melhor pergunta continua a ser: “o que preciso agora?”. Pequena, redonda, suficiente. Faz com que a observação se transforme em escolha consciente, sem virar uma nova obrigação na lista.
Ao fim de um ano a observar a rotina desta forma leve, há três aprendizagens que destaco. A primeira é que muitas vezes confundimos cansaço com falta de motivação. Quando paro para olhar, percebo que o cansaço é o ponto de partida, e a motivação aparece (ou não) depois. A segunda é que existem horas do dia onde sou claramente mais lenta — não há nada a corrigir nisso, há apenas a organização possível.
A terceira aprendizagem foi a mais inesperada: descobri que tenho preferências muito concretas sobre como começar a tarde. Antes, era automática. Agora, sei que precisos de cinco minutos a sós, sem ecrãs, entre o almoço e o trabalho. Não é uma regra rígida — é apenas uma forma de honrar um padrão que já existia em silêncio. Como notam estudos abertos da Universidade de Harvard sobre comportamentos quotidianos, conhecer as próprias rotinas pode contribuir para um bem-estar mais estável.
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